Pochete (2019)

Eu e minha pochete, na saída do prédio da Faculdade de Educação, em algum momento de setembro ou outubro de 2016. Foto de Giovana Pontes

Pochete nasceu por acaso. No fim de 2017 eu precisava entregar um trabalho para uma disciplina de Design Gráfico que fosse uma publicação com um número mínimo de páginas que eu não lembro agora. Calhou também de aquele ser um ano em que eu mergulhei nesse mundinho das publicações independentes por conta dos trabalhos com a Fernanda Grigolin, que há anos está mexendo com isso. Lembro quando cheguei no prédio da Bienal para ajudá-la a montar a mesa do Jornal de Borda e de observar atento as pessoas descoladas ao nosso redor. Tudo ali era informação e ideia que me contagiaram de certa forma.

Eu e Fernanda Grigolin na Feira Plana de 2017. Foto da própria, acho que março daquele ano

Em 2016, por alguma razão as pochetes voltaram à moda. E voltaram como um item bem fashion (alguns diriam hipster, mas não sei..). A primeira pessoa que vi usando uma naquela época foi a Nana, na saída do Instituto de Artes. Achei brega e engraçado ao mesmo tempo. Talvez, acima do preconceito inicial e mais importante de tudo, achei prático. Eu tava numas de levar o essencial do essencial comigo, tipo umas canetas e a carteira. E eu acho que carteira no bolso faz um volume horrível. As pochetes então viriam a calhar.

Acho importante dizer que neste mesmo 2016 eu tomei emprestada uma câmera dessas digitais (que você talvez tenha esquecido que existam) e que foram populares no começo dos anos 2000. Já tinha tido lições importantes de registros com elas, afinal o passeio favorito meu e do Alemão é sair por aí e, no caminho, tirar fotos de uma parede com cores bonitas, uma faxineira descansando na praça, um caminhão estacionado, etc..

Paula Monterrey e Fernanda Flores em Porto Alegre, começo de outubro de 2016

Juntando a câmera e a pochete, consegui uma porção considerável de fotos de uns seis meses de 2016. Não me pergunte o porquê, mas esse ano foi de um esquisito único, tanto num lado especial quanto soturno. Olhando 2016 de 2019, parece agora que ele foi um pòr-do-sol bonito com companhias boas. 2017 e 2018 foram uma noite bem longa, às vezes solitária. 2019 é uma manhã longa. Talvez eu sinta vergonha depois desse parágrafo.

É no efêmero que o improvável vai acontecer. Festas, encontros, viagens com um punhado de dias contadíssimos. Efêmeras são as imagens que circulam dos nossos celulares para as redes sociais. Elas urgem. De tão ansiosas, passam de mão em mão numa pressa que os relógios de ponteiro preguiçam a acompanhar. É até irônico pensar que o André Dahmer disse numa entrevista qualquer que o que a gente joga aqui nos dáblios dáblios é tipo xixi na piscina. Já era. Perversa é a memória virtual, que não esquece nada do que faremos e fizemos. Todo será copiado, printado, jogado na cara, viralizado, escarrado, transmitido numa live.

Guss mostrando sua tatuagem de lacraia. Outubro de 2016

Pochete é, além do meu 2016 e de um monte de fotos inquietas, tudo o que a Nan Goldin também me contou em 2017, quando peguei emprestado na biblioteca sua publicação mais conhecida. Ballad Of Sexual Dependency, como a própria artista defende, não retrata os marginalizados. Ele é o coração de uma cena LGBT e na margem dela está quem aponta dedos. Além disso, este livro tem o flash, o amoroso. Cenas noturnas. Quando fui abrir meus arquivos procurando o quê poderia fazer para imprimir para a tal matéria da faculdade, pensei inicialmente na revista FRUiTS e na moda de rua. Foi necessário certo tempo para eu perceber que eu tinha debaixo do meu nariz um material que era sobre moda E amor E flashs E um livro de artista…

Eduarda Heilink, eu e Bárbara Melo no Carnazebra do IFCH. Foto de Isabela Carvalho

Não sei escolher uma foto favorita das que elenquei como parte da série que entrou na versão final do livro. Cada uma é uma história muito particular, às vezes profundamente passional, às vezes bem banal, borrada. Da margem do tempo que me separa deste projeto e destas memórias, me admira a elasticidade do meu coração por ter vivido tantas loucuras em tão pouco tempo. Admira também a ingenuidade. A Chaya Lispector escreveu um texto bonito sobre bobos e acho que tudo que envolve as fotos Pochete é bobo no sentindo em que a autora colocou nesse escrito. “E só o bobo é capaz do amor”…

Felipe Nora de Moraes num restaurante de Barão Geraldo, durante sua estada em Campinas. Novembro de 2016

Assim que eu puder, Pochete vai ganhar novos exemplares, na qualidade que merece. Não me pergunte datas, tá estranho colocá-las com precisão esses dias. Garanto, porém, uma edição de luxo para cof cof algumas pessoas cof cof, com um exemplar impresso de Dentes de Leite, outra empreitada especial. Esses dois trabalhos são tão distintos, nem parecem uma cruza possível. Entretanto, relendo o parágrafo do fio ingênuo que conduziu algumas escolhas minhas de 2016, acho que consigo amarrá-lo ao doce de Dentes. Milagre encontrar sentido nos meus trabalhos de arte. Nos acontecimentos que fazem eles surgirem, me agustia a aparente falta de sentido em tirar fotos de paredes e escrever listas de nomes de pessoas que passaram pela minha vida. Descubro, hoje, que é bom que seja assim mesmo. E se não fizer sentido depois de cinco anos, talvez seja bom assim.

Teste de impressão de Pochete, dezembro de 2017

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a·mor (2016)

AMOR
a·mor
sm

11 Nas relações interpessoais, afeição que decorre de amizade, admiração ou interesses comuns; benevolência, carinho, simpatia.

2 Grande afeição que une uma pessoa a outra, ou a uma coisa, e que, quando de natureza seletiva e eletiva, é frequentemente acompanhada pela amizade e por afetos positivos, como a solicitude, a ternura, o zelo etc.; afeto, devoção.

5 O ato sexual

6 Sentimento efêmero e inconsequente

Um amor: a) pessoa ou coisa de grande beleza; uma graça, um sonho; b) pessoa de grande bondade; um doce, um encanto

REVIEW DESSA TAL 32SEGUNDA BIENAL (2016)

Eu tava bem pego pra ver essa Bienal. Logo na primeira semana de janeiro vazou o cartaz e o titulo-tema-coração da exposição, chamada de Incerteza Viva. 2016 foi rolando e com ele TODAS as ~incertezas~ fora socando minha cara. Então o título já ganhou OUTRA cara nesses meses antes da abertura. Não morar em SP e e ter ido num domingão também acrescentaram muito. Não morar significa ver as coisas dentro de um recorte rápido e feito na hora, meio apressado, baseado na intuição e no tempo que dá. Ir de domingo é ver a caixona de vidro do Niemeyer cheia de gente, ativando obras e vivendo aquele espaço de uma maneira muito boa. Enfim…aí vai o review:

– Hibridismos. Obras tridimensionais multicoisas. Obras-espaços, muitas atividades, Opavivará vazando do prédio e dando rolê por SP.

– Apropriação. Artistas falando e usando temas étnicos. Muitas obras comissionadas. Ocas, estandartes e grafismos. Duas colunas são a obra do vão. Atenção às arquiteturas.

– Francis Alys, sim, apenas sim, 3x sim.

– Sônia Andrade e uma galera consagrada no último andar.

– Muito desenho, pequenas individuais-ilhas no fluxo de gente.

– Muitos nomes desconhecidos. Será a Bienal um bom lugar pra conhecer esses mil novos nomes?

– Por que a pista de skate da artista coreana é temporária?

– Um esquema bem diferente das outras bienais que já fui: todas as entradas pro prédio abertas e o guarda-volumes do lado de fora. Adorei e lembrei muito do Rubem Mano. Os bons entenderão.

– Filmes-documentários. Tem que tirar um dia só pra assistir todos.

– Veja o vídeo institucional sobre a criação da identidade visual para essa Bienal.

– Catálogo com desconto para estudantes e professores.

Excessos de imagem (2015)

Outro questionamento pontual e que tive o prazer de conversar algumas vezes com meu querido Rafael Limberger é o efeito do excesso de informações e especialmente o excesso de imagens na produção do artista. Sabemos que essa saturação engordura nossa linha de raciocínio e às vezes dificulta a continuidade das atividades. Perdemos horas “limpando a mente” para depois partirmos para algo que vem menos do exterior e floresce do nosso íntimo. Esse pensamento veio ao encontro de uma leitura de pelo menos duas semanas atrás que falava que fazer fotografias hoje é um trabalho muito mais de seleção do que de simplesmente fazer fotos. Banalizado como está, o ofício precisa mais de um olhar arguto do que quantidade. Selecionar é preciso.

Comentando um treco que escrevi e que nem concordo mais (2016-2019)

Já disse isso algumas vezes, mas não custa repetir: seja na hora difícil, seja no momento mais alegre e sem nome, minha resposta para estes sentimentos e momentos diversos será a arte, a poesia, o lirismo. Não sei ser o avesso disso. Não sei ser lacônico. Não sei balbuciar. Não sei hesitar. Aprendi cedo a lição verborrágica, potente. 

Cova para o silêncio, semente para outras direções…

Minhas palavras e meu gesto crescerão como a erva daninha mais frutífera…

Eu quero que meu silêncio cresça como um bonsai. Meditativo, paciente. Não falar tem sido uma experiência poderosa para mim. Calar-me. Não significa necessariamente omitir, ser conivente. Significa simplesmente aceitar alguns vazios, pausas, interrogações e perguntas que não terão respostas. Parece que quando quero falar de mais, quero acobertar com gritos minhas maiores ansiedades. Agora, nesse exercício contínuo de não-dizer, enxergo com mais clareza aquilo que me angustia e consigo me desvencilhar das palavras espinhosas…

25 (2016)

25 de março.

Tenho um carinho enorme por lá. Parece que as pessoas na rua viram uma coisa só. As mercadorias também. E são tantas…tão úteis quanto “baratas”. Se vou lá com uma ideia pra trabalho volto com mais 100. Hoje não foi diferente: queria os carrinhos (aqueles) e voltei com lupas. As conexões entre ideias e formatos fervilham a cabeça. Despertarei vários objeto e eles virarão imagens poderosas…